Revisado em: 03/10/2026
Um livro pintado em casca de árvore e dobrado como uma sanfona apareceu em Viena, em 1739, sem que ninguém soubesse como tinha chegado lá. Hoje ele é considerado o mais importante dos poucos livros maias que sobreviveram. O que será que ele guarda?
Ele é o Códice de Dresden, muito conhecido como Calendário Maia de Dresden. O nome popular não é exato, porque o manuscrito reúne calendários, mas também tabelas astronômicas, almanaques e imagens de deuses.
- Quando: feito entre os séculos XI e XIV (há divergência entre estudiosos); comprado em 1739
- Onde: provavelmente Chichén Itzá, no Yucatán; hoje em Dresden, Alemanha
- Quem: escribas maias; Johann Christian Götze, que o comprou em Viena
- Por que importa: traz tabelas de Vênus e de eclipses e é um dos raros livros maias que restaram
Neste artigo, você vai ver como o códice chegou à Europa e o que suas páginas dizem sobre o céu. Vai ver também o que ainda é incerto.
Ao longo do texto, deixamos claro o que é fato comprovado e o que é apenas hipótese.
O que é o Códice de Dresden
O Códice de Dresden é um dos poucos livros maias pré-hispânicos que chegaram até nós. Ele foi feito de papel de casca de figueira, coberto com uma camada de cal e pintado dos dois lados.
São 78 páginas, distribuídas em 39 folhas, que juntas somam cerca de 3,56 metros. Segundo estudos, pelo menos oito escribas diferentes trabalharam nele.
Os outros livros maias que restaram são os códices de Madri e de Paris, além do Grolier, hoje chamado Códice Maia do México, cuja autenticidade já foi debatida. Quase todos os demais se perderam, em grande parte após a conquista espanhola.

Quando e onde ele foi feito
A data exata não é consenso. Muitos estudiosos apontam os séculos XI ou XII, enquanto outras estimativas chegam a cerca de 1345. Há ainda pesquisadores que defendem que ele seja mais recente do que se pensava.
A hipótese mais aceita é que o livro tenha sido produzido em Chichén Itzá, na península de Yucatán. Também se supõe que seja uma cópia atualizada de uma obra mais antiga, o que ainda é hipótese.
Como o códice chegou à Europa
O que se sabe com certeza começa em 1739. Naquele ano, Johann Christian Götze, teólogo alemão e diretor da Biblioteca Real de Dresden, comprou o manuscrito de um particular, em Viena, durante uma viagem.
Como o livro foi parar em Viena continua sendo um mistério. Na época da compra, ele foi descrito apenas como um livro mexicano.
Em 1810, o naturalista Alexander von Humboldt publicou cinco páginas do códice em um de seus atlas. Foi assim que o público europeu passou a conhecê-lo. Mais sobre outros sistemas de contagem do tempo maias está em nosso site.
- Séc. XI a XIV | O códice é produzido, provavelmente na região de Yucatán.
- 1739 | Götze compra o manuscrito em Viena.
- 1810 | Humboldt publica cinco páginas do códice.
- 1945 | O códice sofre graves danos de água ligados ao bombardeio de Dresden.
O que há dentro do livro
Cerca de 65% das páginas trazem tabelas astronômicas ilustradas. Elas mostram que os maias registravam o céu com método e cálculo, e não apenas com observação.
A tabela de Vênus
A tabela acompanha o ciclo de Vênus, de cerca de 584 dias. O valor usado pelos escribas, 583,92 dias, fica muito próximo do valor moderno, de 583,93 dias.
Cinco ciclos de Vênus somam 2.920 dias, o equivalente a oito anos solares. Para os maias, Vênus era uma figura agressiva, e há quem proponha que a tabela ajudasse a escolher datas de campanhas militares. Isso é hipótese.
As tabelas de eclipses
As páginas 51 a 58 reúnem as tabelas de eclipses. O período calculado nelas é de 11.960 dias, e os glifos de eclipse aparecem cerca de 40 vezes no livro.
Calendários, almanaques e deuses
O livro usa a contagem ritual de 260 dias, o Tzolk’in, dividida de várias formas. Ela convivia com o calendário solar Haab, de 365 dias. Combinados, os dois formavam um ciclo de 52 anos.
Os almanaques ligam períodos do Tzolk’in a deuses, como Chaak, associado à chuva. Eles serviam para orientar rituais e para indicar épocas favoráveis à agricultura. A deusa da Lua é a única figura neutra entre os personagens do livro.
Uma das páginas mais famosas mostra uma grande enchente jorrando da boca de um dragão celeste. A cena é uma das imagens mais lembradas do códice.
O que ainda não sabemos
Cerca de 250 dos aproximadamente 350 sinais do códice já foram decifrados. Ainda há partes que os especialistas não conseguem ler com segurança.
Comprovado: o conteúdo das tabelas e a compra de 1739. Hipótese: a origem em Chichén Itzá, a cópia de uma obra anterior e o uso militar da tabela de Vênus. Desconhecido: a data exata de produção e o caminho do livro até Viena.
Como o códice sobreviveu
Durante a Segunda Guerra Mundial, o códice sofreu graves danos de água. Há divergência entre as fontes sobre o momento exato: durante os incêndios do bombardeio ou pouco depois.
Ele foi restaurado e hoje pertence à Biblioteca Estadual e Universitária da Saxônia (SLUB), em Dresden. A biblioteca também disponibiliza imagens digitalizadas do livro.
Conclusão
Lá no começo, perguntamos o que um livro de casca de árvore, chegado a Viena sem passado conhecido, poderia guardar. Guarda séculos de observação do céu, uma contagem do tempo muito precisa e um pedaço do pensamento maia. Que outras histórias teriam se perdido com os livros que não sobreviveram?
Veja também: Título do Artigo Relacionado
FAQ
Quando o Códice de Dresden foi feito?
Não há data exata. Muitos estudiosos indicam os séculos XI ou XII, e outras estimativas chegam a cerca de 1345.
Quem descobriu o Códice de Dresden?
Ele não foi descoberto em escavação. Johann Christian Götze, diretor da Biblioteca Real de Dresden, comprou o manuscrito em Viena, em 1739.
O Códice de Dresden é mesmo um calendário?
Em parte. Ele traz contagens de tempo, mas também tabelas de Vênus e de eclipses, almanaques e imagens de deuses.
Quantas páginas tem o Códice de Dresden?
Ele tem 78 páginas, em 39 folhas, com cerca de 3,56 metros de comprimento.
Onde o Códice de Dresden está hoje?
Ele fica na Biblioteca Estadual e Universitária da Saxônia (SLUB), em Dresden, na Alemanha.
- Wissenschaft.de, reportagem com o epigrafista Nikolai Grube sobre o Códice de Dresden
- History of Information, verbete sobre o Códice de Dresden
- Dicionário Etimológico de Astronomia e Astrofísica (Observatório de Paris), verbete Dresden codex
- [ADICIONAR após conferir: SLUB Dresden e Encyclopaedia Britannica]







