- O que é: ficar sem dormir vai além do cansaço, porque atenção, memória e percepção pioram conforme as horas passam.
- Caso de referência: Randy Gardner, aos 17 anos, ficou 264 horas acordado entre 28/12/1963 e 08/01/1964, com acompanhamento de pesquisadores.
- O que se sabe: depois de 17 a 19 horas acordado, o desempenho em alguns testes ficou igual ou pior ao de quem tinha 0,05% de álcool no sangue (estudo de 2000).
- O que é mito ou está em disputa: os relatórios do caso Gardner não sustentam psicose contínua, e não há caso documentado de morte direta por ficar sem dormir em pessoas saudáveis, ao contrário do que se viu em ratos.
- Por que importa: microssonos podem acontecer sem que o motorista perceba.
Uma noite em claro costuma render sono, irritação e dificuldade para ler uma página até o fim. A pergunta é o que acontece quando as horas se acumulam e o sono não vem. A resposta mais bem documentada até hoje começou como um projeto de feira de ciências, em 1963.
Este texto separa o que os relatórios científicos registraram do que circula por aí, como a ideia de que Randy Gardner enlouqueceu ou de que alguém morre por passar alguns dias sem dormir. Também mostra o que estudos com voluntários, ratos e uma doença genética rara dizem sobre os limites do corpo, e o que eles não dizem.
O recorte de dois dias acordado está em outro texto do site: o que acontece se você não dormir por 48 horas.

Randy Gardner e as 264 Horas Acordado
Randy Gardner tinha 17 anos quando começou, em 28 de dezembro de 1963, uma vigília planejada para a feira de ciências da escola. Segundo reportagem do Olhar Digital que resume o relatório dos pesquisadores G. Gulevich, William Dement e L. Johnson, a meta era chegar a 264 horas acordado, um pouco acima das 260 horas que ele e os amigos conheciam como marca anterior.
Dois amigos fizeram o papel de observadores. Na fase final, a Unidade de Pesquisa Neuropsiquiátrica Médica da Marinha dos Estados Unidos participou das observações, e Dement, pesquisador de sono da Universidade Stanford, acompanhou os últimos dias. A vigília terminou em 8 de janeiro de 1964, e Gardner dormiu pouco mais de 14 horas em seguida, segundo contou à rádio pública americana NPR.
Como Foram os Dias, Segundo os Registros
- 1 Dias 1 a 3: o relatório psiquiátrico não registrou mudanças de comportamento importantes.
- 2 Cerca de 90 horas: surgem ilusões, irritabilidade e dificuldade crescente para manter a atenção.
- 3 Quarto e quinto dias: aparecem lapsos de memória e episódios que os pesquisadores chamaram de sonhos acordados. Um resumo preservado pelo Education Resources Information Center (ERIC) diz que ele confundiu uma placa com uma pessoa e, por volta do quarto dia, imaginou ser um grande jogador de futebol americano, sem indicar qual.
- 4 Nono dia: o pensamento parecia fragmentado, e ele muitas vezes não terminava as frases.
- 5 8 de janeiro de 1964: fim da vigília, seguida de um sono de pouco mais de 14 horas (NPR).
Os itens 1 a 4 seguem a mesma reportagem do Olhar Digital, que resume os relatórios da época. Os observadores descrevem instabilidade: momentos quase normais se alternavam com falhas de atenção e de memória.
Décadas depois, em entrevista de 2017 ao programa Hidden Brain, da NPR, Gardner contou que cerca de dez anos antes passou a ter insônia. A NPR registra que a causa é desconhecida. Ele mesmo vê a insônia como um acerto de contas pelo experimento, mas isso é interpretação pessoal, sem valor de conclusão científica.
17 Horas Acordado: o Que o Estudo de 2000 Mediu
Não é preciso chegar a dias para perder desempenho. Em estudo publicado em 2000 na revista Occupational and Environmental Medicine, os pesquisadores Williamson e Feyer compararam os efeitos de até 28 horas sem dormir com os de doses medidas de álcool. Foram 39 voluntários, 30 do setor de transportes e 9 do exército, cada um comparado consigo mesmo.
| Tempo acordado | O que o estudo encontrou | Observação |
|---|---|---|
| 17 a 19 horas | Em alguns testes, desempenho igual ou pior ao de quem tinha 0,05% de álcool no sangue; respostas até 50% mais lentas. | Vale para tarefas de velocidade e de precisão, e não para todas as medidas. |
| Períodos mais longos | Desempenho no nível da maior dose de álcool usada, equivalente a 0,1%. | O resumo do estudo não fixa o número de horas dessa etapa. |
O resultado não transforma quem está acordado há 17 horas em alguém com álcool no sangue. Ele compara o desempenho em tarefas. O médico Alberto Ogata, conselheiro da Associação Brasileira de Qualidade de Vida, citou em entrevista divulgada pelo Portal do Trânsito uma regra mais direta: cerca de 17 horas de vigília equivaleriam a 0,05% e 24 horas a cerca de 0,10%. O estudo original, porém, só fala em períodos mais longos para chegar ao nível de 0,1%.
Microssonos: o Sono Que a Pessoa Não Percebe
Quanto mais cansada a pessoa, mais propensa a microssonecas, segundo reportagem da BBC Future publicada pelo Correio Braziliense em fevereiro de 2024. Não existe uma definição científica única, mas muitos estudos tratam como microssoneca o fechar dos olhos por 1 a 15 segundos por vez.
O problema é a percepção. Em um experimento descrito na mesma reportagem, voluntários eram acordados depois de dormir apenas 60 segundos, e só 15% percebiam que haviam cochilado. Mesmo depois de 10 minutos de sono, só metade reconhecia que tinha dormido.
No trânsito, a conta é de distância. A 100 km/h, um veículo percorre cerca de 28 metros por segundo, e quatro segundos de sono passam de 110 metros sem controle. A reportagem lembra uma pesquisa com câmeras de painel de 52 motoristas profissionais de uma empresa de transporte do Japão: três quartos deles mostraram sinais de microssonecas antes de colidir depois de adormecer. A orientação é parar em local seguro ao sentir cansaço, tirar um cochilo e só voltar a dirigir quando estiver totalmente desperto.
Dá para Morrer por Ficar sem Dormir?
A evidência de que a privação total pode matar vem de ratos. Em experimentos da Universidade de Chicago, dez ratos foram impedidos de dormir por completo, e todos morreram ou foram sacrificados quando a morte parecia iminente, entre 11 e 32 dias. Os pesquisadores não identificaram causa anatômica de morte. Os animais perderam peso mesmo comendo mais, e o gasto de energia passou do dobro do nível normal, segundo o resumo do estudo de Everson, Bergmann e Rechtschaffen (revista Sleep, 1989) na BVS.
Em pessoas, o quadro é outro. A Slate e a ScienceAlert, em inglês, e a Futura Sciences, em francês, afirmam que não há caso documentado de morte direta por privação de sono, com a ressalva da insônia familiar fatal. A Sleep Review, em inglês, lembra um caso de 2012 na China, em que os médicos apontaram uma combinação de falta de sono, álcool e tabaco, e não a falta de sono isolada.
A insônia familiar fatal é uma doença rara causada por príons, herdada em famílias. Segundo o Manual MSD, ela afeta predominantemente o tálamo, região que influencia o sono. Os sintomas podem começar do fim dos 20 anos ao início dos 70, com média de 40, e a morte costuma ocorrer entre 7 e 73 meses depois. O tratamento é de suporte. O que a fonte descreve é uma doença neurodegenerativa, e não uma privação voluntária de sono.
E o Recorde Mundial de Ficar sem Dormir?
A marca de Gardner não é o recorde histórico absoluto, como lembra o Olhar Digital. Segundo o Mega Curioso, o Guinness World Records encerrou a categoria em 1997 por causa dos perigos da privação de sono. A NPR menciona que o feito de Gardner foi superado em 1986 por alguém que ficou quase 19 dias acordado, e os relatos divergem nos detalhes dessas marcas posteriores.
O que se pode afirmar com segurança, então, é que Gardner protagonizou um dos casos de privação de sono com mais acompanhamento científico, e não que ninguém jamais tenha ficado mais tempo acordado. Para outras marcas incomuns, veja os recordes mais estranhos do Guinness.

Veja também: 14 curiosidades sobre o sono
Perguntas Frequentes
Quanto tempo uma pessoa já ficou sem dormir?
O caso mais conhecido e acompanhado por pesquisadores é o de Randy Gardner, com cerca de onze dias, entre 1963 e 1964. Há relatos de marcas maiores, mas o Guinness deixou de monitorar a categoria por causa dos riscos.
Ficar sem dormir causa alucinações?
Os registros do caso Gardner falam em ilusões e em episódios de sonhos acordados a partir do quarto dia, mas o relatório psiquiátrico não registrou psicose contínua. Os registros também divergem sobre chamar tudo de alucinação.
Dá para morrer por ficar sem dormir?
Em pessoas, as fontes consultadas não registram caso de morte direta por privação de sono. Em ratos, a privação total levou à morte em semanas. A insônia familiar fatal é uma doença genética rara, diferente da privação voluntária.
Dirigir depois de uma noite em claro é perigoso?
Sim. Estudos mostram piora de desempenho comparável à do álcool em alguns testes, e os microssonos podem ocorrer sem que a pessoa perceba. A orientação é parar em local seguro e descansar antes de seguir viagem.
- Olhar Digital, reportagem sobre a vigília de Randy Gardner (acesso em 17/10/2026)
- Portal do Trânsito, Dormir mal pode ser tão perigoso quanto beber antes de dirigir (acesso em 17/10/2026)
- Correio Braziliense e BBC Future, Microssonecas: o efeito sobre o corpo dos cochilos que podem durar segundos (acesso em 17/10/2026)
- BVS, Sleep deprivation in the rat: III. Total sleep deprivation (resumo) (acesso em 17/10/2026)
- Manual MSD, Insônia fatal (acesso em 17/10/2026)
- Mega Curioso, Qual é o máximo de tempo que uma pessoa conseguiu ficar sem dormir (acesso em 17/10/2026)
- Fontes em outros idiomas (sem link): NPR (transcrições de 2017 e 2024, em inglês); Occupational and Environmental Medicine, 2000, volume 57, páginas 649 a 655 (resumo, em inglês); Slate, ScienceAlert e Sleep Review (em inglês); Futura Sciences (em francês) (acesso em 17/10/2026)
Aviso: este conteúdo é informativo e foi escrito com base nas fontes indicadas, que podem ser atualizadas por novas pesquisas e descobertas. Lendas e tradições são apresentadas como tal, e nada aqui substitui orientação médica, jurídica ou financeira. As imagens ilustrativas, quando criadas por inteligência artificial, não mostram pessoas, objetos ou lugares históricos reais.







