- O que é: o sistema de escrita do antigo Egito, que combina sinais para palavras, sons e categorias de sentido.
- Origem: aparece nos achados entre cerca de 3200 e 3000 a.C., mas a origem em si é pouco compreendida.
- O que se sabe: não é um alfabeto nem um conjunto de desenhos simbólicos. A leitura foi recuperada por vários estudiosos, entre 1761 e 1824.
- O que é lenda ou está em disputa: a criação por Toth é tradição, e o peso do ano de 1822 na decifração é discutido.
- Por que importa: a decifração abriu à leitura os textos de templos, túmulos e papiros.
Numa parede de templo egípcio, aves, serpentes, olhos e figuras humanas se alinham em fileiras. A pergunta é inevitável: aquilo é desenho ou é texto?
É texto. Só que cada figura pode valer por uma palavra, por um som ou por uma pista de sentido, e foi essa mistura que manteve a escrita ilegível por séculos.
Neste artigo você vê como o sistema funcionava, onde ele aparece nos achados, o que a tradição egípcia contava sobre sua origem e como a leitura foi recuperada. O caminho da decifração é mais longo do que a versão de um único dia de glória.

O que são os hieróglifos e de onde vem o nome
A palavra vem do grego e significa, em tradução literal, escrita sagrada, sentido que os próprios egípcios davam a essa escrita (Bakos, revista Phoînix, UFRJ, 2007). Segundo a World History Encyclopedia, gregos como Heródoto viam algo de sagrado naquelas figuras, e daí o nome.
Os egípcios diziam medu netjer, as palavras dos deuses, porque acreditavam que a escrita tinha vindo deles (Scoville, World History Encyclopedia).
| Ficha: Hieróglifos egípcios | |
|---|---|
| O que é | Sistema de escrita do antigo Egito, que combina sinais para palavras, sons e categorias de sentido. |
| Origem | Fim do período pré-dinástico, entre cerca de 3200 e 3000 a.C., nos achados datáveis; a origem em si é pouco compreendida (Scoville, 2025). |
| Quem é creditado | Nenhum inventor histórico conhecido. A tradição egípcia credita o deus Toth (lenda). |
| Registro mais antigo conhecido | Rótulos do túmulo U-j, em Abidos, por volta de 3100 a.C., até onde se sabe (Scoville, 2025). |
| Como mudou | Surgem a hierática e, por volta do século VII a.C., a demótica; a escrita copta, com letras gregas, acaba substituindo as demais. |
| O que é lenda | Toth como criador da escrita. |
Como a escrita funcionava
O sistema usava três tipos de sinal. Os logogramas valiam por uma palavra inteira, os fonogramas valiam por sons e os determinativos ficavam no fim da palavra para indicar a categoria de sentido (Scoville; Bakos). Os determinativos não eram pronunciados.
Um exemplo de Bakos: a figura de uma boca podia valer pelo som r ou ser a própria boca. Um traço vertical costumava marcar o uso como ideograma, e sem o traço a figura era só o sinal de som.
A escrita não anotava as vogais, o que torna incerta a pronúncia exata das palavras (Bakos). A leitura seguia em colunas, de cima para baixo, ou em linhas, da direita para a esquerda ou o contrário (Scoville).
Quantos sinais havia? As fontes não coincidem. Bakos fala em pouco mais de mil no período faraônico, cerca de setecentos de uso corrente, e em mais de seis mil nos períodos ptolomaico e romano. Scoville fala em milhares no início, reduzidos a cerca de 750 no Reino Médio. O ponto seguro é a ordem de grandeza: centenas em uso corrente e milhares ao longo da história.
Quando e onde a escrita aparece nos achados
A origem é pouco compreendida. Uma das hipóteses mais convincentes, segundo Scoville, liga os sinais a gravuras rupestres de comunidades caçadoras do deserto ocidental do Nilo, já familiarizadas com a comunicação por imagens. Motivos parecidos aparecem em cerâmicas do período pré-dinástico.
Os exemplos mais antigos que podem ser datados com segurança vêm do túmulo U-j, em Abidos, de uma pessoa de elite sepultada por volta de 3100 a.C. Cerca de 150 rótulos de madeira e marfim sobreviveram. Alguns trazem números, outros parecem indicar a origem dos objetos, e o mais complexo traz informação administrativa (Scoville).
Bakos, por sua vez, aponta a Paleta de Narmer, de cerca de 3000 a.C., como o primeiro registro ligado à unificação do Alto e do Baixo Egito. As duas fontes não usam o mesmo critério de primeiro registro, e por isso apontam objetos diferentes.
Quatro escritas para uma mesma língua
Os hieróglifos não foram a única forma de escrever o egípcio. Ao longo do tempo, a língua ganhou versões mais rápidas de traçar.
| Escrita | Aparência e uso | Quando | Fonte |
|---|---|---|---|
| Hieroglífica | Pictográfica, em monumentos e contextos funerários | Desde o início da escrita | Scoville |
| Hierática | Estilizada, em papiro e cacos de cerâmica; documentos públicos, comerciais e particulares | Mais ou menos junto com a hieroglífica | Scoville |
| Demótica | Abreviada, sem sinais pictóricos; substituiu a hierática fora do uso religioso e funerário | Por volta do século VII a.C. | Scoville |
| Copta | Alfabeto de 32 letras, de base grega, primeira escrita alfabética do egípcio | Exemplos completos já no século II d.C. | Scoville; Bakos |
A escrita copta tem um papel que costuma passar despercebido: como a língua copta sobreviveu entre os cristãos egípcios, ela ajudou a decifrar as escritas mortas (Bakos). Para entender como outros povos fizeram o caminho da imagem à letra, veja a origem e evolução do alfabeto.
A lenda de Toth
Como a escrita foi esquecida
Depois da conquista do Egito por Alexandre, em 332 a.C., o grego foi ocupando a administração e a vida pública, e o uso do egípcio escrito encolheu (Bakos). Os períodos ptolomaico e romano trouxeram ainda a expansão do cristianismo e da escrita copta (Scoville).
Segundo Bakos, a última inscrição hieroglífica encontrada é de 24 de agosto de 394, no templo de Ísis, em Filas. Fica a ressalva de que “a última” vale até onde se sabe: um achado novo pode mudar isso.
Nos séculos seguintes, as figuras ficaram mudas. Horapollo, nascido no Egito por volta de 450, escreveu os Hieroglyphica. A obra traduz cerca de trinta sinais, mas seu autor ignorava a natureza da escrita (Bakos). Já Athanasius Kircher, em obra de 1652 a 1654, leu os hieróglifos como puramente simbólicos (Bakos).
A Pedra de Roseta e a recuperação da leitura
Em 15 de julho de 1799, o oficial Pierre Bouchard encontrou, em Roseta, no delta do Nilo, uma pedra com três escritas em duas línguas. Ela registra um decreto de Ptolomeu V, de 196 a.C., em 14 linhas de hieróglifos, 32 de demótico e 54 de grego (Bakos). Quem quiser a história do objeto pode ler sobre a história da Pedra de Roseta.
A pedra deu o ponto de partida, mas não a resposta. A decifração foi feita em etapas, por mais de uma pessoa.
- 1 1761: Jean Barthélemy nota que os cartuchos, contornos ovais alongados, continham nomes de reis (Bakos).
- 2 1799: a Pedra de Roseta é encontrada (Bakos).
- 3 1814: Thomas Young comprova que alguns sinais demóticos eram fonéticos e que a demótica se ligava à hieroglífica (Bakos).
- 4 22 e 27 de setembro de 1822: Champollion data sua carta a Dacier sobre o alfabeto dos hieróglifos fonéticos e a apresenta à Academia (History of Information, Norman).
- 5 1824: sai o livro Précis du système hiéroglyphique, uma exposição mais completa do sistema (History of Information, Norman).
Champollion comparou o nome de Ptolomeu na Roseta com o de um obelisco de Filas, que traz os nomes de Ptolomeu e de Cleópatra, e daí tirou o valor de vários sinais (Scoville). O conhecimento que ele tinha do copto ajudou (Bakos).
O Egito escrito no Brasil
A coleção egípcia reunida por D. Pedro I e D. Pedro II é considerada pelo egiptólogo inglês Kenneth Kitchen a maior e mais importante da América do Sul, segundo Bakos. D. Pedro II visitou o Egito em 1871 e em 1876, e discutiu com egiptólogos o significado dos textos.

Veja também: Curiosidades sobre os sistemas de escrita antigos
Perguntas Frequentes
Os hieróglifos eram um alfabeto?
Não. Misturavam sinais de sons, de palavras inteiras e de categoria de sentido, segundo as fontes consultadas.
Quem inventou os hieróglifos?
Não há inventor histórico conhecido. A tradição egípcia credita o deus Toth, e essa é uma lenda sem comprovação.
Qual foi a última inscrição em hieróglifos?
Até onde se sabe, é a de 24 de agosto de 394, no templo de Ísis, em Filas, segundo Bakos.
Quem decifrou os hieróglifos?
Vários estudiosos contribuíram, entre eles Barthélemy e Young. Champollion deu o passo decisivo, e os pesquisadores discutem se o marco é a carta de 1822 ou o livro de 1824.
Dá para saber como os egípcios falavam?
Só em parte. A escrita não anotava as vogais, o que torna a pronúncia exata incerta, segundo Bakos.
- World History Encyclopedia, Hieróglifos Egípcios (Scoville) (acesso em 16/10/2026)
- Revista Phoînix (UFRJ), Hieróglifos: imagens, sons e egiptomania (Bakos, 2007) (acesso em 16/10/2026)
- Revista Abgadiyat (Biblioteca de Alexandria), artigo sobre a decifração de Champollion, 2025; fonte em inglês, sem versão em português (acesso em 16/10/2026)
- History of Information (Norman), página sobre a carta de Champollion de 1822; fonte em inglês, sem versão em português (acesso em 16/10/2026)
Aviso: este conteúdo é informativo e foi escrito com base nas fontes indicadas, que podem ser atualizadas por novas pesquisas e descobertas. Lendas e tradições são apresentadas como tal, e nada aqui substitui orientação médica, jurídica ou financeira. As imagens ilustrativas, quando criadas por inteligência artificial, não mostram pessoas, objetos ou lugares históricos reais.







